MELHORES MÚSICAS / MAIS TOCADAS
vitor ramil - talismã
Vidro
O cristal
Um vitrô azul
A louça chinesa
Que nunca quebrou
Talismã
De bons metais
Se a noite é ruim
Na mesma hora vens
Poema e risadas
Durmo me teu ombro
Pérola negra
O marinheiro negro
O olho atento em Deus
E no surrealismo
Abraço negro
Literatura negra
A lua de Nosferatu
Jóia
Vidro
vitor ramil - para lindsay
Vachel, as estrelas se apagaram
a escuridão caiu na estrada do Colorado
um automóvel arrasta-se lento na planície
pelo rádio ressoa o clangor do jazz na penumbra
o inconsolável caixeiro viajante acende um cigarro
Há vinte e sete anos em outra cidade
eu vejo sua sombra na parede
você de suspensórios sentado na cama
a mão de sombra encosta uma pistola na sua cabeça
seu vulto cai no assoalho
vitor ramil - contraposto
Estrada finda, eu voo
Cacimba seca, eu rio
O som abafa, eu soo
O tempo esquenta, eu frio
Saudade passa, eu vou
A mãe rejeita, eu crio
A sorte toma, eu dou
A renda esgarça, eu fio
Corrente quebra, eu elo
Fumaça encobre, avisto
Alguém não cuida, eu zelo
A roupa rasga, eu visto
O sono aperta, eu velo
O olho enxerga, eu cisco
O fogo apaga, eu nero
O demo gosta, eu cristo
O muro isola, eu pulo
O passo apressa, eu manco
O gene altera, eu puro
O cravo prega, arranco
O saco estoura, aturo
O sangue jorra, estanco
Não aposto em nada imposto
Posto que me oponho e gosto
Do angu que não tem gosto
Da canção que eu nunca mostro
Eu nasci pra contraposto
Mal passado eu sempre tosto
Te visito em pleno agosto
No postal que eu nunca posto
A febre aumenta, eu curo
A farra topa, eu banco
O preço baixa, eu caro
A praça cala, eu grito
O bloco avança, eu paro
O chefe atrasa, demito
O medo olha, encaro
A coisa acalma, agito
O pai renega, amparo
O mundo vero, eu mito
vitor ramil - a invenção do olho
Não estive atado a Deus
No sonho de Moisés
A cabeça ardendo ao sol
Serpentes nos meus pés
Desejei de Homero a escuridão
Mas nas trevas me perdi
Fui então ao sol e o sol me fez
Um relógio de Dali
Esquecer depois lembrar
Os cheiros de um jardim
Muito aquém dos animais
Humano além de mim
Mas se estive mesmo atado a Deus
Tive os sonhos aos meus pés
A cabeça a pino sobre o sol
E as serpentes com Moisés
Hoje acho com razão
Que nada é bem assim
E essa razão, de onde vem?
A invenção do olho pôs
As coisas no lugar
Mundo posto me servi
A vida é meu jantar
Misturei ao tédio o amor cortês
Quando a musa bem me quis
Quando a sorte deu-me de beber
Dei um gole e fui feliz
Esquecer depois lembrar
Os cheiros de um jardim
Muito aquém dos animais
Humano além de mim
Se a invenção do olho nunca pôs
Cada coisa em seu lugar
Posto em vida ao mundo sem pedir
Fui servido no jantar
Hoje acho com razão
Que nada é bem assim
E essa razão, de onde vem?
No futuro espiarei
A vida ao revés
Feito isso escreverei
Que Deus sonhou Moisés
vitor ramil - adiós goodbye
Coisas que ficaram por dizer
Coisas que não tive tempo de ouvir
Goodbye, adiós
Deixo o sol dormindo no porão
Bato a porta sem ferir o dia
Adiós, goodbye
Coisas que não canso de esquecer
Coisas que se escondem na lembrança
Goodbye, adiós
Deixo ao vento que quiser levar
Minhas folhas secas de utopia
Adiós, goodbye
Coisas que procuram seu lugar
Coisas que me ocupam cada instante
Goodbye, adiós
Deixo em gelo fino meus sinais
Que ninguém me eleja como guia
Adiós, goodbye
Coisas que acertaram no que sou
Coisas que falharam no que não fui
Goodbye, adiós
Deixo o sol dormindo no porão
Bato a porta sem ferir o dia
Adiós, goodbye
vitor ramil - ibicuí da armada
Entre o meu e o teu ser
Tudo é permitido
Lambaris de cristal
E um bugio largado e rouco
De uma acordeona fantasma
Teu eco me responde
No timbre dos caudilhos!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito
Um silêncio muito antigo
Cai sobre os insetos
Chegam homens maragatos
Num pequeno bote
Que encosta sem pressa
Na outra margem
O ronco da queda d'água
Me chama de louco!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito
São três homens
Três facões
Com três lenços rubros
São três sombras
Três chapéus
Que entram pela mata
Três luas brilhando no aço
São três degoladores
Por sorte não me viram!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito
As cigarras recomeçam
Com seu canto triste
Eu mergulho como um bicho
E nadando em águas profundas
Revelo poemas aos peixes
São versos do soldado
Do poeta russo!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito
Limo e verbo
Lodo e rima
Louca a bala
Laica
Correnteza
Movimentos
Lanço a poesia molhada
Ao toque dos seres gelados
E quando volto à tona
Os homens me descobrem!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito
São três palas
Três anéis
Com três vozes duras
São três golpes
Três metais
E as três luas me partem ao meio
Brilhando no espelho
Das lâminas
Meu corpo vai-se embora
Na trilha das traíras
E minha cabeça livre
No gêlo dos cometas!
Ibicuí da Armada
A mulher cavalga sobre teu leito!
vitor ramil - ramilonga
Chove na tarde fria de Porto Alegre
Trago sozinho o verde do chimarrão
Olho o cotidiano, sei que vou embora
Nunca mais, nunca mais
Chega em ondas a música da cidade
Também eu me transformo numa canção
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Sobrevôo os telhados da Bela Vista
Na Chácara das Pedras vou me perder
Noites no Rio Branco, tardes no Bom Fim
Nunca mais, nunca mais
O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
O tango dos guarda-chuvas na Praça XV
Confere elegância ao passo da multidão
Triste lambe-lambe, aquém e além do tempo
Nunca mais, nunca mais
Do alto da torre a água do rio é limpa
Guaíba deserto, barcos que não estão
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais
Do Alto da Bronze eu vou pra Cidade Baixa
Depois as estradas, praias e morros
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí
Ramilonga, Ramilonga
Vaga visão viajo e antevejo a inveja
De quem descobrir a forma com que me fui
Ares de milonga sobre Porto Alegre
Nada mais, nada mais
vitor ramil - mango
Criado junto aos arreio
A boleadeira e o laço
Cheio de talho e pontaço
Velho amigo e companheiro
Meu rude traste campeiro
Que uso preso no braço.
Batendo ao cano da bota
Uma festança campeira
Num balancear de vaneira
Enfiado ao cabo da faca
Acariciando a guaiaca
E ouvindo a gaita manheira.
Retoço em cancha de tava
Entre fichas e dinheiro
Amadrinhando o coimero
Pra receber a parada
Cuidando a tava clavada
Lá junto ao pé do parceiro.
Cruzo pra lá e pra cá
Um dos braços pendurado
Ás vezes troco de lado
Bombeando a parada paga
E fica o facão e adaga
Me olhando de atravessado.
Um cerne de guajuvira
Retovado com capricho
Às vezes quando me espicho
Lasqueio um quebra-quexudo
Ou derrubo o melenudo
junto ao balcão de bolicho.
Sempre ao lado do ginete
Já me criei camperaço
Me lembra um potro picasso
Corcoveando num remexo
Sem uma corda no queixo
Que derrubei a mangaço.
Sempre metido em buchincho
Levando algum sofrenaço
Talhas de adaga, balaço
É sina que desembesta
Mas já quebrei muita testa
E nunca cai do braço.
vitor ramil - piquete do caveira
Lanças erguidas, espadas no ar
É o piquete do Caveira
Que chegou pra espantar
Pra espalhar os inimigos,
Pra mandar e desmandar
É ponta de faca, é relho na mão
Cavalhada, disparada
Vai deixando pelo chão
A marca do piquete
Do Caveira valentão
Cavalo negro, a escuridão
O lenço preto, assombração
Botando gente pra correr
Botando medo pra valer
Vem chegando, vem chegando
Vem chegando, Caveira
vitor ramil - século xx
Vida espiral
Nave febril
O carro que vai veloz
Sob o céu da campanha
Século XX
Uma temporada no inferno
Pela mão feminina do jovem poeta
Siglo XX
Acende os teus fários
Tempo bom
Templo no escuro
Augusto traduz Arnaut
E a fome ainda mata milhões
Tanto, tanto, tanto
E nem vês!
Golpe e chacarera
Super-Homem
E o herói Macunaíma
Tango e Monarquia
O mar azul de Varadero
E de Miami
Que não vês!
Sonho no fim
Túnel no fim
O trilho do trem da morte
Acaba nas nuvens
Século XX
Tua cara no espelho
Revela Repensa Refaz
Lava os olhos
E tira esse batom
Tempo bom
Templo que cai
Um índio nu na floresta
E gente em pequenas prisões
Simples, simples, simples
E nem vês!
Punks e Atahualpa
O imperialismo
E a Nicarágua de Sandino
Sempre nessa dança sem sentido
A vanguarda e o retrocesso
A dança que não vês!
vitor ramil - telhados de paris
Venta
Ali se vê
Onde o arvoredo inventa um ballet
Enquanto invento aqui pra mim
Um silêncio sem fim
Deixando a rima assim
Sem mágoas, sem nada
Só uma janela em cruz
E uma paisagem tão comum
Telhados de Paris
Em casas velhas, mudas
Em blocos que o engano fez aqui
Mas tem no outono uma luz
Que acaricia essa dureza cor de giz
Que mora ao lado e mais parece outro país
Que me estranha mas não sabe se é feliz
E não entende quando eu grito
O tempo se foi
Há tempos que eu já desisti
Dos planos daquele assalto
E de versos retos, corretos
O resto da paixão, reguei
Vai servir pra nós
O doce da loucura é teu, é meu
Pra usar à sós
Eu tenho os olhos doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, são doidos por ti
vitor ramil - vento negro
Onde a terra começar
Vento Negro gente eu sou
Onde a terra terminar
Vento negro eu sou
Quem me ouve vai contar
Quero luta, guerra não
Erguer bandeira sem matar
Vento Negro é furacão
Tua vida o tempo
A trilha o sol
Um vento forte se erguerá
Arrastando o que houver no chão
Vento negro, campo afora
Vai correr
Quem vai embora tem que saber
É viração
Dos montes, vales que venci
Do coração da mata virgem
Meu canto, eu sei, há de se ouvir
Em todo o meu país
Não creio em paz sem divisão
De tanto amor que eu espalhei
Em cada céu em cada chão
Minha alma lá deixei
vitor ramil - a ilusão da casa
As imagens descem como folhas
No chão da sala
Folhas que o luar acende
Folhas que o vento espalha
Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens descem como folhas
Enquanto falo
Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei
As imagens se acumulam
Rolam no pó da sala
São pequenas folhas secas
Folhas de pura prata
Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens se acumulam
Rolam enquanto falo
Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei
As imagens enchem tudo
Vivem do ar da sala
São montanhas secas
São montanhas enluaradas
Eu plantado no alto em mim
Contemplo a ilusão da casa
As imagens enchem tudo
Vivem enquanto falo
Eu sei
O tempo é o meu lugar
O tempo é minha casa
A casa é onde quero estar
Eu sei
vitor ramil - a luta
Embaixo,
Coleando nas voltas do vale estreito
Já está toda a vanguarda,
Armas fulgurantes, feridas pelo sol,
Feito uma torrente escura
Transudando raios.
vitor ramil - a resposta
O homem caminha só na estação
Vindo de todo trem de todo lugar
Chega na banca e olha o jornal
Tira do bolso o último cigarro
Ri da notícia antes de ler
Rindo se esquece o que ia fazer
Olha o cigarro solto na mão
Bota outra vez no bolso sem perceber
Dá um passo em falso
E pega o braço de uma mulher que passa
E pergunta pra ela
E pergunta sem parar:
Que lugar é esse?
Que lugar é esse?
A mulher livra o braço e se vai
Corre e ainda pega o trem pega o seu lugar
Lá num vagão com gente demais
Pensa que tudo é doido nessa vida
Ri da resposta que ia dar
Rindo se esquece o que ia falar
Enche a paisagem com seu olhar
Passa com ela e vê que ficou lá atrás
Chega em casa cansada
E se senta com um cara que não diz nada
E pergunta pra ele
E pergunta sem parar:
Que lugar é esse?
Que lugar é esse?
Cds vitor ramil á Venda